3.9 Análise de Capacidade para Posição Real

Em muitas aplicações industriais, estamos interessados em avaliar a capacidade de um processo em produzir dentro de especificações sobre a posição de determinada característica. Por exemplo, quando realizamos um furo em uma peça temos um alvo espeficado (Target Position) para o centro desse furo. Em geral, a região de tolerância é uma circunferência centrada no alvo.

Com o objetivo de avaliar tal capacidade, Krishnamoorthi (1990) propõe uma dupla de índices, a saber, $PC_p$ e $PC_{pk}$. O índice $PC_p$ é uma medida de quanto a região de variabilidade natural do processo $(6\sigma)$ representa da região de tolerância. Por sua vez, $PC_{pk}$ é uma medida de distância entre o a média do processo e o alvo. Nesta proposição, Krishnamoorthi assume que o vetor aleatório formado pelas coordenadas da posição do processo são variáveis aleatórias com distribuição normal com variâncias iguais e independentes entre si.

9.1 - Índices de Capacidade para Posição Real: $PC_p$ e $PC_{pk}$

Alguns processos multivariados possuem uma tolerância de engenharia especial, chamada de tolerância posicional. A tolerância posicional é um tipo de dimensionamento geométrico que descreve a região de tolerância entre a localização real dos resultados de saída do processo e a localização alvo. Em geral, essa região de tolerância é dada por um círculo. Por exemplo, considere uma chapa de aço no qual devemos fazer um furo no centro. O centro da chapa é determinado pelas coordenadas $(x,y)$, que é uma característica bi-dimensional. Neste caso, a especificação de posicionamento deste furo é determinada por um círculo. Estas características da qualidade são denominadas “Posição Real” (“True Position”). A seguir, apresentaremos a estratégia proposta por Krishnamoorthi (1990) para avaliar a capacidade de tais tipos de processos.

Suponha que estamos interessados em avaliar a capacidade de um processo de produção em relação a uma característica que possui tolerância posicional. Suponha que as especificação da posição alvo (“target position”) é ${\bf TP}=(a,b)$ e que temos uma região tolerância circular $R_T$ de diâmetro $D \in R$ em torno de ${\bf TP}$. A figura 3.9.1 ilustra essa situação.

Figura 3.9.1

Figura 3.9.1: Elementos geométricos de um processo sujeito a tolerância posicional.

Note que, neste caso, $R_{T}$ é definida por:

$$R_{T}=\left \lbrace (x,y) \in R^2 : \sqrt{(x-a)^2+(y-b)^2} \leq \frac{D}{2}\right \rbrace .$$

Definimos:

  • X: variável aleatória que representa a coordenada da característica de interesse no eixo x;
  • Y: variável aleatória que representa a coordenada da característica de interesse no eixo y.
  • Consequentemente, P=(X,Y)T é o vetor aleatório que representa a posição da característica de interesse.

Nesta técnica, supomos que o vetor aleatório ${\bf P}=(X,Y)^T$, segue distribuição normal bivariada com vetor de médias

$$ {\bf \mu_p} = \begin{bmatrix} \mu_x \cr \mu_y\end{bmatrix} $$

e matriz de variâncias e covariâncias

$${\bf \Sigma} = \begin{bmatrix} \sigma^2 \quad 0 \cr 0 \quad \sigma^2 \end{bmatrix} $$

Dessa forma

$$f_{{\bf P}} ({\bf p})=f_{X,Y}(x,y)=\frac{1}{\sqrt{2 \pi \sigma^2}}\exp\left\lbrace -\frac{(x-\mu_x)^2}{2 \sigma^2} \right\rbrace \times \frac{1}{\sqrt{2 \pi \sigma^2}}\exp\left\lbrace -\frac{(y-\mu_y)^2}{2 \sigma^2} \right\rbrace $$

$$=\frac{1}{2\pi \sigma^2}\exp \left\lbrace \frac{-(x-\mu_x)^2 -(y-\mu_y)^2}{2\sigma^2}\right\rbrace $$

$$=\frac{1}{2\pi \sigma^2}\exp \left\lbrace -\frac{1}{2}\frac{({\bf p}-{\bf \mu_p})^T ({\bf p}-{\bf \mu_p})}{\sigma^2} \right\rbrace .$$

Ou seja, supomos que as coordenadas seguem distribuição normal, com variâncias iguais e são independentes. Utilizando este modelo, Krishnamoorthi propõe um índice formado por duas componentes para avaliar a capacidade do processo. Estas componentes serão apresentadas a seguir.

$PC_p$ - Positional $C_p$

Nesta componente estamos interessados em avaliar a área da região de variabilidade natural do processo $R_{V}$, em relação a área da região de tolerância $R_{T}$. Assumimos que o vetor de médias ${\bf \mu_p}$ coincide com $\bf TP$. A figura 3.9.2 exemplifica essa suposição.

Figura 3.9.2

Figura 3.9.2: Ilustração do comportamento de um processo centrado no alvo.

Além disso, sob as suposições apresentadas anteriormente, a região de variabilidade natural do processo, em que esperamos que 99,73% das obsevações estejam contidas, pode ser definida como:

$$R_V=\left\lbrace (x,y) \in R^2 : \sqrt{(x-\mu_x)^2+(y-\mu_y)^2} \leq 3\sigma \right\rbrace .$$

Deste modo,

$$\hbox{Área} \left( R_{V} \right)=\pi r^2=\pi \left(3\sigma\right)^2 = 9\pi \sigma^2$$

$$\hbox{Área} \left( R_{T} \right)=\pi r^2=\pi \left(\frac{D}{2}\right)^2 = \frac{\pi D^2}{4} $$

Nestas circustâncias, Krishnamoorthi propõe a primeira componente do índice de capacidade $PC_p$ (positional $C_p$) como:

$$PC_p=\frac{\hbox{Área} \left( R_{T} \right)}{\hbox{Área} \left( R_{V} \right)}=\frac{\dfrac{\pi D^2}{4}}{9\pi\sigma^2} =\frac{D^2}{36\sigma^2}.$$

Note que quando:

  • $PC_p = 1$ ⇒ área da variação natural do processo é igual da área de tolerância;
  • $PC_p > 1$⇒ área de variação natural é menor que a área de tolerância;
  • $PC_p < 1$⇒ área de variação natural é maior que a área de tolerância.

Dessa forma, valores maiores de $PC_p$ indicam melhor capacidade do processo produzir com menor variabilidade que variabilidade especificada para a posição de interesse. Usualmente assumimos que o processo é capaz se $PC_p > 1.33$, porém, cada processo tem necessidades diferentes, dessa forma, cada processo deve ser analisado de maneira diferente.

$PC_{pk}$ - Positional $C_{pk}:$

Nesta componete avaliamos a distância entre a média do processo e o alvo especificado. Consideramos agora que elas não coincidam, ou seja, ${\bf \mu_p} \neq {\bf TP}$. A figura 3.9.3 exemplifica essa nova situação.

Figura 3.9.3

Figura 3.9.3: Ilustração do comportamento de um processo não centrado no alvo.

A componete $PC_{pk}$ (Positional $C_{pk}$) é definida como:

$$PC_{pk}=\dfrac{\dfrac{\pi D^2}{4}}{\pi \left[ \sqrt{(\mu_x-a_1)^2 + (\mu_y-a_2)^2} + 3\sigma \right]^2}= \dfrac{D^2}{4 \left[ \sqrt{(\mu_x-a_1)^2 + (\mu_y-a_2)^2} + 3\sigma \right]^2}.$$

Note que quando ${\bf \mu_p}={\bf{TP}}$ temos que $PC_p=PC_{pk}$. Como para $PC_p$, usualmente buscamos $PC_{pk}> 1.33$. Quando satisfazemos essa exigência, ${\bf \mu_p}$ está próximo de ${\bf TP}$. Além disso, garantimos que a área da região de variabilidade natural do processo seja menor que a área da região de tolerância especificada.

Observações Gerais

  1. Valores altos de $C_p$ pareados com valores baixos de $C_{pk}$ indicam que o processo apresenta variabilidade aceitável, porém, não está sua média está distante do alvo;
  2. Neste índice, assumimos que $X$ e $Y$ têm distribuição normal com variâncias iguais e são independentes. Essas suposições devem ser checadas para evitar conclusões errôneas;
  3. Na prática, em geral, não conhecemos as médias e variância populacionais. Utilizamos os etimadores $μ_p=(\bar{X}, \bar{Y})$, $S^2_x$ e $S^2_y$ para $σ^2$;
  4. Assumimos que as variância são iguais, porém, os estimadores $S^2_x$ e $S^2_y$ podem ser diferentes. É recomendável utilizar o maior entre os estimadores (caso mais conservador).

Exemplo 9.1.1

Considere que estamos interessados em avaliar a capacidade de um proces.so de produção de um pistão. Nossa característica de interesse é a posição do centro do furo superior da peça em relação as laterais nos eixos $x$ e $y$. A figura 3.9.4 ilutra um desenho da vista isométrica deste pistão.

Figura 3.9.4

Figura 3.9.4: Desenho vista Isométrica do pistão.

A figura 3.9.5 ilustra o desenho de corte da visão superior do pistão, bem como suas especificações em relação aos eixos cartesianos de interesse

Figura 3.9.5

Figura 3.9.5: Desenho do corte da visão superior do pistão.

Analisando as dimensões da peça em relação aos pontos do plano temos que o alvo está localizado no ponto $y=30$ e $x=30$, ou seja ${\bf{TP}}=(30,30)$. Além disso, o diametro de tolerância é de 2, isto é, $D=2$. Definimos a região de tolerância ($R_{T}$) como os pontos internos ao círculo de diâmetro $D$ e centro em ${\bf TP}$. Isto é

$$R_{T}=\lbrace (x,y) \in R^2 : \sqrt{(x-30)^2+(y-30)^2} \leq 1\rbrace $$

Definimos também

  • $X$: variável aleatória que representa a coordenada do centro do furo do pistão no eixo x;
  • $Y$: variável aleatória que representa a coordenada do centro do furo do pistão no eixo y;
  • $P=(X,Y)^T$: O vetor aleatório que representa a posição do centro do furo do pistão.

Para esse estudo, foram coletados 50 pistões e uma medição foi feita em cada. Os dados coletados são apresentados a seguir:

Peça X Y
1 30,372 30,98
2 30,068 30,596
3 29,75 30,059
4 30,222 31,279
5 29,95 30,476
6 30,546 31,025
7 30,129 30,182
8 30,036 30,319
9 29,828 30,294
10 30,018 31,219
11 29,893 30,393
12 29,646 30,186
13 30,312 30,654
14 30,026 30,785
15 29,901 30,175
16 29,723 30,414
17 30,036 30,717
18 29,894 30,51
19 29,867 30,331
20 29,974 30,704
21 30,01 30,019
22 30,153 30,446
23 29,93 30,551
24 30,044 30,531
25 30,028 30,615
26 30,189 30,546
27 29,974 30,212
28 29,78 30,354
29 29,943 30,137
30 30,199 31,187
31 29,903 30,686
32 30,106 30,336
33 29,984 30,546
34 30,134 30,576
35 29,905 30,377
36 30,192 31,051
37 30,24 30,587
38 29,656 30,191
39 29,719 30,44
40 30,048 30,467
41 30,133 30,709
42 30,29 31,052
43 30,146 30,712
44 29,735 30,273
45 29,768 30,252
46 29,852 30,332
47 29,96 30,468
48 30,263 31,103
49 30,129 30,657
50 30,289 31,172

Tabela 3.9.1: Medições das 50 peças

Neste caso, temos que:

$$\widehat{\mu}_x=\bar{X}= \frac{30,372+30,068+\dots + 30,289}{50}=30,01786$$

$$\widehat{\mu}_y=\bar{Y}= \frac{30,980+30,596+\dots + 31,172}{50}=30,55766$$

$$S_X = \sqrt{\frac{(30,372-30,01786)^2+(30,068-30,01786)^2+\dots + (30,289-30,01786)^2}{50-1}}=0,195888$$

$$S_Y = \sqrt{\frac{(30,980-30,55766)^2+(30,596-30,55766)^2+\dots + (31,172-30,55766)^2}{50-1}}=0,323313$$

Uma vez que $S_Y > S_X$, fazemos $\widehat{\sigma}=S_Y=0,323313.$

$$PC_p=\frac{\hbox{Área} \left( R_{T} \right)}{\hbox{Área} \left( R_{V} \right)}=\frac{\dfrac{\pi D^2}{4}}{9\pi\sigma^2} =\frac{D^2}{36\sigma^2}=\frac{2^2}{36\times 0,323313^2}=1,062944.$$

$$PC_{pk}=\dfrac{\dfrac{\pi D^2}{4}}{\pi \left[ \sqrt{(\mu_x-a)^2 + (\mu_y-b)^2} + 3\sigma \right]^2}= \dfrac{D^2}{4 \left[ \sqrt{(\mu_x-a)^2 + (\mu_y-b)^2} + 3\sigma \right]^2} =$$

$$=\frac{2^2}{4\left[ \sqrt{(30,01786-30)^2 +(0,323313-30)^2 } + 3\times 0,323313\right]^2 } =0,428369.$$

Os reultados obtidos pela Action Stat a seguir:

X Y
Média 30.0179 30.5577
Desvio Padrão 0.1959 0.3233

Tabela 3.9.2: Tabela das Estimativas

Valores do processo
Área da Região da Variação Natural 2.9556
Área da Região de Tolerância 3.1416
PCp 1.0629
PCpk 0.4284

Tabela 3.9.3: Índice de Capacidade

Figura 3.9.6

Figura 3.9.6: Gráfico de Posição Real