13.6 Estabilidade Acelerado - Arrhenius Modificado

Arrhenius Modificada

Sabe-se que umidade relativa, umidade absoluta e pressão de vapor de água são linearmente correlacionadas em temperatura constante, o que significa que não importa quais dessas medidas de umidade são usadas para modelar a taxa de degradação. No entanto, ao modelar os efeitos combinados de temperatura e umidade na taxa de degradação, diferentes descritores de umidade resultam em modelos diferentes. Assim, diferentemente do Capítulo Arrhenius, em que foi considerado apenas a temperatura, neste capítulo trataremos de uma modificação da equação de Arrhenius que leva em consideração a combinação de temperatura e umidade relativa na taxa de degradação.

Apresentaremos aqui uma modificação na equação de Arrhenius para que tenhamos um modelo em que a taxa de degradação aumenta exponencialmente com a umidade relativa. Este é um modelo combinado de temperatura e umidade no qual a umidade relativa é usada para descrever a umidade, ou seja, é um modelo que incorpora uma dependência de Arrhenius da temperatura juntamente com os efeitos da umidade. Proposto por Genton e Kesselring (1977); Waterman e Adami (2005) ; Waterman et al. (2007) e Waterman (2009), a equação de Arrhenius modificada é dada por

$$ \begin{equation} K = A\times \exp\left(-\dfrac{E_0}{R \times T}\right)\times \exp(B\times RH), \tag{3.6} \end{equation} $$

e aplicando o logaritmo, temos

$$ \begin{equation} \ln K = \ln A -\dfrac{E_a}{R \times T} + B\times RH. \tag{3.7} \end{equation} $$

A explicação desse modelo vem do fato dele ser amplamente empírico por natureza e de que sabe-se que a umidade relativa afeta a mobilidade molecular e, portanto, aumenta a frequência de colisão e a constante pré-exponencial da Equação de Arrhenius.

Nenhum termo de interação (termo cruzado) é proposto neste modelo, ou seja, a temperatura da taxa de degradação é independente da umidade relativa e a umidade da taxa de degradação é independente da temperatura. O uso da umidade relativa (RH) e não da pressão de vapor (VP) ou umidade absoluta (AH) se deve ao fato de que a RH fornece o melhor ajuste dos dados experimentais. Estudos em muitos produtos diferentes forneceram suporte para este modelo.

A Equação 3.7 pode ser visualizada em termos de um gráfico tridimensional em que a variável de resposta, $\ln k$, está em um plano com uma inclinação de $-E_a/R$ ao longo do eixo de temperatura e uma inclinação de $B$ ao longo do eixo de umidade relativa, mostrando como o termo $E_a$ é um parâmetro de “sensibilidade à temperatura” e $B$ é um parâmetro de “sensibilidade à umidade”.

Os coeficientes $A$, $-E_a/R$ e $B$ podem ser calculados por meio de regressão não linear múltipla da Equação 3.6 ou regressão linear múltipla da Equação 3.6. A regressão linear múltipla usa $\ln k$ como a variável medida (resposta) e $1/T(K^{-1})$ e %$RH$ como variáveis de entrada.

Estimação

Modelo de degradação linear

Ao monitorar-se a degradação química de produtos farmacêuticos, o resultado medido é dado normalmente como porcentagem em massa do produto de degradação em relação à massa total da substância medicamentosa e suas impurezas relacionadas. Esse resultado pode ser expresso como $\char37\text{Deg}_t$, onde $t$ é o tempo gasto para obtê-lo. Para calcular a taxa de degradação, $k$, é preciso conhecer $\char37\text{Deg}$ e o tempo de armazenamento $t$. Se $\char37\text{Deg}$ aumenta linearmente com o tempo, podemos formular a seguinte expressão para calcular a taxa de degradação:

$$ \begin{equation} K = \dfrac{\char37\text{Deg}_t}{\text{tempo}(t)} \quad(\text{ordem zero}) \tag{3.8} \end{equation} $$

onde a referência “ordem zero” é usada para dizer que a velocidade da reação permanece inalterada a medida que diminui a substância reagente, ou seja, é constante (elevada a zero). As unidades comumente utilizadas para calcular a taxa $k$ são a porcentagem ($\char37$) ao mês ou ao dia. Dessa forma, os resultados podem ser comparados com os limites de especificação que também são usualmente dados em porcentagem. É importante ressaltar que a maioria das reações de ordem zero são na verdade reações de primeira ou segunda ordem, que, devido ao consumo do reagente, são interrompidas antes que a taxa de degradação comece a diminuir visivelmente resultando em uma degradação aparentemente linear.

Perfis de degradação não linear

Ao tratar-se de produtos farmacêuticos sólidos, perfis de degradação não linear são muito mais comuns de se encontrar que perfis lineares. Citamos abaixo alguns dos motivos que levam a essa não linearidade:

  • Mecanismos de degradação química complexos: o mecanismo de degradação de alguns produtos pode envolver várias etapas reversíveis, concorrentes ou consecutivas.
  • Estados físicos heterogêneos: podem haver diferentes estados físicos e ambientes de IFA, e cada estado pode exibir uma suscetibilidade diferente à degradação. Além disso, os estados físicos da amostras podem modificar-se ao longo do tempo resultando em diferentes níveis de degradação.
  • Limites de degradação $\char37\text{Deg}_{\infty}$ desconhecidos e menores que 100%: pode ocorrer quando a taxa de reação é proporcional ao reagente limitante prestes a ser consumido ou quando apenas uma pequena proporção de IFA esteja em um estado reativo.
  • Processos físicos e de estado sólido não lineares: ocorre quando há nucleação, difusão ou contração de volume no estado sólido. Dessa forma a taxa limite de velocidade do processo de degradação prossegue através de cinética não linear.
  • Ambientes onde a umidade varia: a taxa de degradação para a maioria dos produtos é significativamente afetada pela umidade, por exemplo, produtos embalados podem apresentar aumento na umidade pois a umidade dentro da embalagem normalmente aumentará lentamente em direção à do ambiente externo como resultado da permeação de umidade através da embalagem. Dessa forma, a taxa de degradação vê-se afetada.

Quando se surge qualquer um dos tipos de perfil de degradação não linear citados acima, a necessidade de encontrar um valor “$k$” para modelar os efeitos de temperatura e umidade geralmente não é trivial. Mas é importante se certificar que perfis de degradação semelhantes sejam obtidos em diferentes condições de temperatura e umidade.

Apresentamos, na Tabela 13.3.1, modelos cinéticos para processos comuns de degradação não linear de estado sólido, que são as expressões cinéticas de degradação de zero, primeira e segunda ordem.

Modelo Cinético Fórmula Diferencial $\left(\dfrac{d\alpha}{dt}=\right)$ Fórmula Integral $\left(k=\right)$ Fórmula Integral $\left(\alpha=\right)$
Ordem Zero $k$ $\dfrac{\alpha}{t}$ $kt$
Primeira Ordem $k(1-\alpha)$ $\dfrac{-\ln(1-\alpha)}{t}$ $1-e^{-kt}$
Segunda Ordem $k{(1-\alpha)}^2$ $\dfrac{{(1-\alpha)}^{-1}-1}{t}$

Tabela 13.3.1: Expressões cinéticas de degradação do estado sólido

O objetivo de aplicar uma abordagem de modelo cinético é extrair uma constante de taxa significativa, $k$, da curva de degradação versus tempo, que é então usada como a variável de resposta no modelo de estabilidade acelerado com temperatura e umidade. Modelos cinéticos estão disponíveis para uma variedade de processos e mecanismos de degradação, alguns dos quais estão listados na Tabela 13.3.1, em que as expressões cinéticas listadas podem ser pensadas como opções para a transformação linear da curva de degradação. A terceira coluna da Tabela 13.3.1 mostra como pode ser calculado a partir de $\alpha$ (a extensão da degradação ou grau de conversão) e o tempo ($t$); $\alpha$ neste contexto pode ser calculado usando a seguinte equação:

$$\alpha = \dfrac{\char37 \text{Deg}_t}{ \char37 \text{Deg} _{\infty}}$$

Muitas vezes, o nível de degradação do produto no início do estudo estabilidade preditiva acelerada ($\char37\text{Deg}_{0}$) é diferente de zero, caso em que pode ser preferível definir $\alpha$ usando a seguinte equação:

$$ \begin{equation*} \alpha = \frac{\char37\text{Deg}_t - \char37\text{Deg}_0}{\char37\text{Deg}_\infty - \char37\text{Deg}_0}, \end{equation*} $$

em que o limite de degradação $(\char37 \text{Deg}_{\infty})$ é um parâmetro que dificilmente será conhecido a priori; portanto, normalmente é deixado em 100% ou é estimado a partir dos perfis de degradação (ou seja, é usado um “parâmetro de ajuste de modelo” adicional). Consideraremos que $\char37\text{Deg}_{\infty} = 100\char37$ .

Exemplo

Com a intenção de exemplificar o teste de estabilidade acelerado (Arrhenius Modificado), consideremos o conjunto de dados encontrado na Tabela 13.3.8, que contém informações de temperatura, em graus Celsius, umidade, a duração em dias da exposição daquele medicamento àquela temperatura e umidade além do nível de degradação. O intuito é estimar a taxa de degradação para uma temperatura de 25ºC e umidade de 60%RH ao longo de 365 dias.

Duração (Dias) Temperatura (C) Umidade (%RH) Nível Degradação (%)
14 50 75 0,42
14 60 40 0,45
14 70 10 0,62
2 70 75 0,66
2 80 40 0,65

Tabela 13.3.8: conunto de dados para teste de estabilidade acelerado (Arrhenius Modificado)

Primeiro, estimamos a taxa de degradação ($K$) em cada condição combinada por temperatura e umidade diferente, por meio do modelo linear:

$$ \begin{equation} K = \dfrac{\char37\text{Deg}_t}{\text{tempo}(t)} \end{equation} $$

em que

  • $\char37\hbox{Deg}_t$: porcentagem de degradação até o tempo $t$, é obtida subtraindo degradação observada no tempo $t$ da degradação inicial ($\char37 \hbox{Deg}_0 = 0,05$);
  • $t$: duração de tempo.

A seguir, apresentamos os dados com as taxas estimadas.

Duração (Dias) Condição Degradação $\mathbf{\char37\hbox{Deg}_t}$ $\mathbf{K}$
14 50°C/75%RH 0,42 0,37 0,0264
14 60°C/40%RH 0,45 0,4 0,0286
14 70°C/10%RH 0,62 0,57 0,0407
2 70°C/75%RH 0,66 0,61 0,305
2 80°C/40%RH 0,65 0,6 0,3

Tabela 13.3.9: Estimação das taxas

A partir das taxas estimadas, ajustamos um modelo de regressão linear múltiplo segundo a equação Arrhenius Modificado dada por:

$$ \begin{equation} \ln K = \ln A \dfrac{E_a}{R}\times \dfrac{1}{T}+B\times RH \end{equation} $$

em que

  • $\ln K$: é a variável resposta sendo $K$ a taxa de degradação estimada;
  • $\ln A$: fator constante;
  • $E_a/R$: coeficiente angular associado à temperatura;
  • $1/T$: inversa da temperatura absoluta Kelvin;
  • $B$: coeficiente angular associado à umidade relativa;
  • $RH$: umidade relativa

Os dados utilizados para a realização do ajuste do modelo linear múltiplo são apresentados na tabela a seguir.

Condição Temperatura Inversa Umidade (%RH) ln K
50°C/75%RH 0,0031 75 -3,6333
60°C/40%RH 0,003 40 -3,5553
70°C/10%RH 0,0029 10 -3,2012
70°C/75%RH 0,0029 75 -1,1874
80°C/40%RH 0,0028 40 -1,2040

Tabela 13.3.10: Dados para o modelo de regressão linear múltiplo

O seguinte passo será realizar uma análise da variância (ANOVA) para testar a influência da temperatura e da umidade no modelo.

G.L. Soma de Quadrados Quadrado Médio Estat. F. P-valor
Temperatura Inversa 1 3,8542 3,8542 1069,3304 0,0009
Umidade (%RH) 1 2,4151 2,4151 670,0593 0,0015
Resíduos 2 0,0072 0,0036

Tabela 13.3.11: Tabela ANOVA

Na Tabela 13.3.11 vemos que o p-valor é menor que 0,05 para temperatura e umidade, logo concluímos que ambas variáveis são influentes no modelo. Ajustando o modelo de regressão linear múltipla com os valores de $\ln(K)$ obtemos as seguintes estimativas:

Estimativa Desvio Padrão Estat. t. P-valor
Intercepto 36,0193 0,9603 37,5094 0,0007
Temperatura Inversa -13581,7589 333,4129 -40,7395 0,0006
Umidade (%RH) 0,0314 0,0012 25,8855 0,0015

Tabela 13.3.12: Coeficientes

Queremos, nesse exemplo, estimar a taxa de degradação para a temperatura de 25ºC e umidade de 60%RH por 365 dias. Assim, calculamos o inverso da temperatura Kelvin e aplicamos esses valores no modelo ajustado, isto é, $$ \frac{1}{T} = \frac{1}{25+257,5} = \frac{1}{282,5} = 0,003354$$ e então $$\widehat{\ln(K)} = 36,019 + (- 13581,759)\ast 0,003354 + 0,0314\ast 60 = -7,64978$$ assim $$\hat{K}=\exp( -7,64978) = -0,000476147.$$

Ao multiplicar esse valor por 365 dias $$-0,000476146\ast 365 = 0,173793.$$

Portanto, a taxa de degradação predita na temperatura 25º C e umidade 60% RH por 365 dias é de 0,173793, isto é, estima-se que o medicamento perde aproximadamente 17,38% de teor da substância analisada por ano, se exposto a uma temperatura de 25º C e umidade de 60% RH.

Figura13.3.2

Figura 13.3.2: Gráfico 3D da taxa de degradação prevista